Roupa limpa não é roupa desinfetada
Cheira bem, vem dobrada, branca como a neve de um postal. Quem a arruma no armário de um lar dirá, sem hesitar, que está limpa. E está. A pergunta que raramente se faz é outra: está desinfetada?
Desinfetar é reduzir os microrganismos a um nível que já não representa risco para quem vai usar a peça. Num hotel, o hóspede é saudável, fica três noites e vai-se embora. Num lar, o residente tem muitas vezes mais de oitenta anos, defesas em baixo, feridas que demoram a sarar, incontinência e, vive ali. O lençol, a toalha, a camisola que a filha trouxe no Natal: tudo volta ao corpo de alguém frágil. É por isso que, neste segmento, «lavar bem» não chega. Quem já leu o que escrevemos sobre os desafios da lavandaria hospitalar sabe que o lar está hoje muito mais perto do hospital do que do hotel.
O termómetro não mente, mas tem de ser bem lido
Comecemos pela via mais segura e mais antiga: o calor. A desinfeção térmica assenta numa ideia simples de que uma temperatura suficientemente alta, mantida durante tempo suficiente, elimina a generalidade dos agentes que nos preocupam.
O tempo de desinfeção só começa a contar quando a carga inteira atinge a temperatura, e não quando o visor da máquina a anuncia; até lá, o calor ainda está a abrir caminho até ao centro do lençol enrolado no fundo do tambor. É por isso que os programas de desinfeção das máquinas profissionais são concebidos e validados para garantir esse patamar, em vez de confiarem apenas no termóstato.
E a camisola de lã da D. Amélia?
Aqui entra o problema que nenhum manual resolve sozinho: a roupa pessoal. Num lar, não há só lençóis e toalhas. Há camisolas, calças de malha, roupões, peças com valor afetivo que a família escolheu com cuidado e que não aguentam temperaturas altas sem encolher dois números. Ferver tudo estraga a roupa e, com ela, um pouco da dignidade de quem a veste. Não desinfetar põe em risco todos os outros.
Então, como se resolve?
Com desinfeção química: lavagens a temperaturas mais baixas, com produtos desinfetantes doseados automaticamente, cuja eficácia tem de estar comprovada como equivalente à da via térmica e que, na Europa, têm de estar enquadrados no regulamento dos produtos biocidas. Sem doseamento automático e calibrado, porém, é apenas lixívia a olho, e a olho ninguém valida coisa nenhuma. Há ainda efeitos colaterais simpáticos: baixam a fatura de energia, e as fibras sintéticas, que hoje dominam o guarda-roupa dos residentes, sofrem menos e libertam menos microplásticos.
A parede que separa o sujo do limpo
A melhor desinfeção do mundo de nada serve se a roupa voltar a contaminar-se pelo caminho. E é aqui que a lavandaria de um lar se parece mais com uma cozinha profissional do que com a lavandaria de um hotel: tudo é fluxo.
A roupa suja entra por um lado, a limpa sai pelo outro, e os dois mundos nunca se cruzam. As máquinas de barreira levam esta lógica ao limite: carregam-se na zona suja e descarregam-se na zona limpa, com uma parede pelo meio. Não é por acaso que se tornaram habituais nos hospitais e começam a sê-lo nas residências de maior dimensão.
Num lar mais pequeno, onde uma barreira física não é viável, a disciplina faz o resto: zonas bem marcadas, carros distintos para sujo e limpo, mãos lavadas entre um e outro. E sacos hidrossolúveis para a roupa contaminada, que entram fechados na máquina e se dissolvem durante a lavagem, sem que ninguém lhes toque. Num surto, este pequeno gesto poupa uma equipa inteira.
O inimigo que chega depois da lavagem
Há um capítulo que quase ninguém conta: a recontaminação. A roupa sai desinfetada da máquina e fica uma hora húmida dentro do tambor, porque a secadora estava ocupada. Já seca, é dobrada numa bancada onde há pouco se pousou um saco de roupa suja. Depois arruma-se num armário rente ao chão, ao lado do carro dos resíduos. Ao fim do dia, a desinfeção foi-se.
A norma europeia EN 14065, que define um sistema de controlo da biocontaminação dos têxteis tratados em lavandaria - o chamado RABC (Risk Analysis and Biocontamination Control / Análise de Risco e Controlo de Biocontaminação) - existe precisamente para olhar para o percurso inteiro, e não só para a máquina. Mesmo que um lar não pretenda certificar-se, vale a pena agir tendo em conta esta norma: em que ponto pode a roupa voltar a ficar contaminada?
Provar que se fez
E agora a pergunta incómoda: se amanhã houver um surto, consegue demonstrar que a roupa foi desinfetada? As máquinas profissionais atuais registam temperaturas, tempos e dosagens de cada ciclo. Esses registos, a verificação periódica das temperaturas e a calibração das bombas doseadoras são o que separa uma boa intenção de uma boa prática. E isso é também trabalho de assistência técnica, não apenas de quem dobra os lençóis.
Limpa, toda a roupa sai da máquina. Desinfetada, só sai a que foi pensada para isso. Se quer saber de que lado está a sua lavandaria, há uma rede de instaladores COMECA preparados para dar-lhe a melhor resposta.
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